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"Deus dá asas para quem não sabe voar"

Por Marcelo Pereira

Todo mundo conhece o ditado citado no título. O significado deste provérbio é que normalmente as pessoas que tem mais sorte, as que recebem os maiores benefícios, são justamente aquelas que não tem as condições de aproveitá-las, normalmente desperdiçando o privilégio que possuem. 

Sortudos são como aquelas crianças que esperneiam escandalosamente nas lojas de brinquedos atrás daqueles brinquedos caríssimos, mas quando finalmente conseguem, largam em um canto e não brincam mais, enquanto outras crianças continuam desejando os mesmos brinquedos, mas com muito mais vocação para utilizá-los melhor.

Na vida afetiva isso é muito frequente. No mundo competitivo em que vivemos, onde vemos injustiças para todo o lado, seria incoerente que a vida afetiva ficasse de fora. Há também muita injustiça na formação de casais. O pior: com a desvantagem de que a etiqueta social não permite que negociemos trocas de mulheres com outros homens, sobretudo desconhecidos. Quem casou, casou e se vire com a que pegou, goste ou não.

Normalmente, quem se casa com as melhores mulheres, de beleza delicada e personalidade ao meso tempo inteligente e doce, não são homens que combinem com mulheres desse tipo. Muitas vezes são homens que nem fazem questão de mulheres desse tipo. Se casaram com elas porque houve oportunidade e por serem - de qualquer forma - mulheres bonitas. Qualquer mulher considerada bonita seria desejada por um tipo de homem como esse.

E quem são esses homens? Homens resolvidos na vida profissional, com relativa estabilidade, mas que na personalidade não surpreendem em nada, agindo como uma espécie de machistas moderados, sem ideias contestadoras e que demonstram uma certa preguiça na hora do lazer. Não costumam ser românticos (a não ser naquilo que a sociedade espera, muito visto em novelas) e muitos gostam mais de seus times de futebol do que deles mesmos (quiçá as próprias esposas, tratadas como meros troféus). De qualquer forma, nada que caracterize um príncipe encantado, para casar com uma mulher com o romântico perfil (e não rótulo) de princesa.

E os caras realmente românticos, que valorizam uma mulher? Ou se contentam em conquistar mulheres que eles não amam, ou ficam sozinhos, chorando sentados no meio fio. As mulheres, em geral, ainda não perceberam que o perfil de homem que elas deveriam se unir é justamente o mesmo que elas costumam rejeitar, pela sua secular teimosia em obedecer o instintivo critério do provedor/protetor, achando que o "príncipe encantado" deve ter estabilidade financeira e porte físico. Vai ouvir um grande coaxar no lugar do "sim" na cerimônia de casamento.

E assim, se prova que existe injustiças na vida afetiva, já que as nossas regras sociais ainda não sofreram revisão lógica que pudesse favorecer quem realmente tivesse méritos para tal. Infelizmente a lei do mais forte e a satisfação dos instintos ainda predominam em nossa sociedade, ditando as regras de comportamento, resultando num festival de injustiças que só a imprudência das mentes que regulam e obedecem as nossas regras sociais pode fazer.

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