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Escola sem Educação

Por Marcelo Pereira

Uma escola qualquer em algum lugar do país. Zona urbana. Final do ginásio. Professora trintona e cerca de trinta alunos no começo da adolescência. A professora, de mentalidade conservadora parece feliz:
- Bom, alunos, hoje vamos dar início a mais um ano letivo. Aqui ninguém pensa. Eu digo as ideias e vocês acatam, sem contestar. Quem discordar, vai de castigo para uma salinha secreta, conduzido pelo tio militar que está de plantão no corredor. Cientes? Agora vamos à aula. Para começar, a nossa querida língua portuguesa.
- Professora, uma vez escutei algo tão bonitinho vindo do nordeste. Um senhor falou "brabuleta" e achei fofo. - diz alegremente uma aluna na sala.
- Errado! Este senhor é erradíssimo! Ainda mais vindo do nordeste, região de burros! Todos temos que falar corretamente, como os homens de gravata, sempre corretos, falam. O único que pode escorregar na gramatica é o Carluxo. Ele é o filho do "Mito". Tem regalias.
- Tá, professora - diz a menina, meio chateada.
- Bom, vamos a disciplina mais importante da aula, Matemática. Ela é exata e nunca cria polêmica. Olha que lindo: dois mais dois é quatro. Lindo! Exato e conciso! Quatro!
- Eu não gosto de Matemática, professora! - diz um aluno, com franqueza.
- Mas vai ter que gostar. O "Mito" diz que Educação é para ensinar a fazer conta. Um, dois, um dois!
- Que chato!
- Chato vai ser estudar História! Que matéria! Ensinaram tudo errado! Sabem de uma coisa? Não houve holocausto, não hove ditadura, todos os empresários são 100% honestos e generosos e democracia é coisa de imbecil. O correto é que os ricos mandam, os pobres obedecem.
- Mundo estranho esse que você quer nos mostrar, professora!
- Estranho, mas real! Quem é bom segue sempre as orientações dos mais velhos, dos mais fortes, dos mais ricos e da Bíblia Sagrada, o livro mais completo que já existiu! Deus, o Grande General que nos governa no Universo sabe de tudo e tem o direito de prejudicar que discorda d'Ele.
- Ahhh! - gritam os alunos em coro, em tom revoltado.
- Calem-se! Geografia e Biologia! A Terra é plana, é o centro do Universo e somos feitos de barro! A cegonha nos traz do céu e família deve ter pai, mãe e filhos. Estes devem obedecer cegamente seus pais, o que quer que eles pensam! Certo?
- Meus pais são burros. Me ensinam tudo errado. - diz uma menina.
- Mas são seus pais. Obedeça-os. Não interessa se o que eles ensinam é certo ou errado. Pais ensinam e filhos aprendem. É assim!
- Professora, sou muito tímido e as meninas me desprezam. Posso me masturbar? - diz um garoto meio envergonhado.
- O que é isso, menino! Masturbar é muito feio! É coisa do demônio! E deixe esse negócio de timidez. Arrume um emprego que vai aparecer mulher. Mulher gosta de dinheiro e nunca recusa um ricaço!
- Eu recuso. Só m caso por amor e prefiro ganhar dinheiro com meu próprio esforço. - diz uma menina, com tranquilidade.
- Nada disso! Mulher não trabalha. Mulher deve cuidar da casa e dos filhos. Ser fiel e submissa ao marido, o senhor dos senhores. 
- Mas a senhora está trabalhando! - diz outro garoto.
- Ora, menino! Não questione! Aproveito para dizer que não teremos férias.
- Porque, professora?
- Férias são coisas para vagabundos. Aqui a meta é ralar bastante. Aliá, nem recreio teremos. Aqui não se lancha, se engole. Se quiser correr no pátio, corra atrás do ônibus escolar antes de vir pra cá. Chegar o mais cedo possível. Quem chegar atrasado não entra e vai encarar o tio militar, que saberá o que fazer.
- Tio militar? Aquele fortão feio e mal humorado com cara de brabo que fica lá no corredor, com um estranho uniforme verde-oliva?
- Sim.
Nisso, entre o tal tio militar.
- Professora, algum delinquente nesta sala?
- São todos. Eles não param quietos.
- Quer que eu faça alguma coisa com eles?
- Leve-os para a salinha. Um pouco de "diversão" os fará bem. Até porque falta carne na cantina. Não sei se comemos carne humana, mas carne está cara e rara. Leve-os e faça bem assados. Estou faminta. - diz a professora, irritada com a inquietude dos alunos.
Em seguida, uma verdadeira chacina é cometida pelo próprio tutor militar do colégio. Nenhum aluno sobreviveu. Quem mandou perguntar muito? Pelo menos não vai faltar carne no almoço da cantina no colégio...

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