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Futebol: Diversão sim, Orgulho, não!

Por Marcelo Pereira

Estamos acostumados a tratar o futebol não como lazer, mas como nosso maior dever. No Brasil, o futebol virou nosso maior motivo de confraternização das pessoas. Povo diverso, imenso, possivelmente contraditório: as regras sociais tinham que encontrar um meio de fazer com que as pessoas tivessem um ponto de concordância. 

A mídia bateu o martelo: escolhemos o futebol como o ponto de concordância entre os brasileiros. Brasileiros de diversas raças, credos, gostos, orientação sexual, política ou o que quer que fosse: todos teriam que gostar de futebol. Seja lá como você for, sendo brasileiro, teria que gostar de futebol.

Crianças são educadas desta forma: brasileiros têm que gostar de futebol. Futebol é o nosso orgulho, a nossa identidade. Recusar o futebol é recusar o Brasil. Recusar o futebol é declarar um ódio enrustido à humanidade brasileira. Crescemos ajoelhados diante do futebol. Assim aprendemos a ser. Assim morreremos, com a bandeira de um time em cima de nossas tumbas.

Estranho algo criado pra ser simplesmente uma forma de diversão - e uma forma medíocre, com regras fáceis e cujo auge está na entrada de uma reles bola em uma reles rede de cordas de nylon entrelaçadas - seja motivo de nosso maior orgulho. 

Para que algo medíocre seja nosso maior motivo de orgulho, é porque somos um povo medíocre. É o nosso maior orgulho sermos medíocres. Por isso nunca avançamos. Por isso que nunca vencemos. O complexo de vira-lata que nos faz a "Pátria de Chuteiras" (em ambos, copyright de Nelson Rodrigues) não só nos impede de crescer como nos dá o orgulho de não crescer. Peter Pan? Não, vira-lata mesmo!

Nada contra o futebol se ele fosse tratado como reles forma de diversão. Mas para brasileiros, não se trata de uma reles forma de diversão. É a nossa honra posta em jogo. Berramos, matamos e morremos por causa de um reles time de futebol, algo que nunca nos trouxe a verdadeira dignidade, se mostrando na prática o que insistimos em ignorar: uma reles forma de diversão. Nada mais, nada menos.

Por ser o nosso maior motivo de orgulho e de honra, exigimos que todos os brasileiros sejam torcedores de futebol. Se um se levanta contra, logo tratamos de recriminá-lo. Condenamos o não-torcedor a exclusão social, como um herege a recusar a santa obrigação cívico-social. Quem se assume o desprezo pelo futebol é automaticamente punido pela desobediência a uma regra social tão honrosa e rígida.

Poucos brasileiros se assumem não-torcedores. Ainda temos o orgulho de ver uma reles bolinha a balançar um monte de cordas entrelaçadas. Muitos se calam ou fingem apreço com medo de reprovação social. É obrigatório - embora muitos digam que não - gostar de futebol. 

Como crianças de apenas 518 aninhos de idade, colocamos o lazer acima de tudo. "Vamos ao estádio, depois arrumemos a casa." E nunca arrumamos. Graças a este "orgulho nacional", nada temos que nos orgulhar de nosso país sempre atrasado, que coloca a diversão acima de tudo. 

Como trouxas, comemoramos taças de ouro que nunca nos chegam às mãos, trancadas em armários de clubes controlados por corruptos que desejam ver o Brasil se afundar ainda mais.

Se querem gostar de futebol, continuem gostando. Mas respeitem os que não curtem. Mas não é só. Além do respeito a quem tem o direito de passar longe de estádios e gramados, respeitem a si mesmos, assumindo que o futebol é um mero lazer e que não há motivo dele ser o nosso maior orgulho.

O nosso orgulho deveria ser de nossa dignidade. O nosso orgulho deveria ser de nosso desenvolvimento, interrompido por interesses mesquinhos que causaram a nossa má informação, nos fazendo colocar um sádico maluco no poder. 

Aliás, deveríamos ter vergonha de nós mesmos, pois não pensem que o bom êxito no futebol irá compensar as atrocidades causadas por este fascista que invadiu o Planalto.

Vamos aprender a ser brasileiros. Reconhecer a nossa diversidade, aprendendo que cultuar o futebol não é a única coisa a se fazer. E o mais importante: colocar a diversão em um plano inferior ao da dignidade, lutando por melhores condições e escolhendo lideranças mais responsáveis, não com um moralismo ficcional e sim com o bem estar de um maior número de pessoas, quiçá de todos.

O futebol nunca melhorou a vida da população brasileira. E não insistam, não melhorara nunca. Até porque o futebol não foi criado para nos trazer dignidade, orgulho e honra. Futebol foi criado para nos divertir. E nada mais do que isso. Entendam!

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