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Boa Vida Distopia - Dia 01

Por Marcelo Pereira

Estou bem. Pelo jeito sou o único que estou vivo aqui. Uma pandemia de uma doença nova dizimou quase toda a população. Quase ninguém sobreviveu. Bom, pelo menos ninguém vejo aqui além de mim. Além de mim e de Phoebe, um filhote fêmea de pastor alemão que se apaixonou por mim e me seguiu por um bom tempo. Hoje estamos juntos e ela é a minha única companhia agora. Ela é a minha família.

Como sou o único aqui, posso dormir onde quiser. Hoje acordei em um saguão de uma sede empresarial, após um bom sono num sofá grande e confortável. Aqui a comida é farta, pois há muitos mercados nesta avenida larga. Mas só posso pegar a comida não perecível, pois sem energia elétrica, tudo se estraga com facilidade. Como não há ninguém, simplesmente entro e pego o meu alimento. Meu e de Phoebe.

Tudo que eu tenho é meu computador, que carrego em uma pasta, uma mochila e uma mala com rodas.  Peguei roupas o suficiente para trocar a cada dia, cinco vezes por semana. Tenho onde tomar banho e lavar roupa. Minha casa está segura, longe daqui. Mas após meses trancado em uma quarentena, achei melhor viver andando nas ruas, aproveitando que sou o único na cidade para dormir onde quiser e variar meus dias.

Meu computador tem todos os arquivos que preciso. Interessante que a internet funciona, pois o meu provedor é estrangeiro. Florânia, o país onde vivo, desobedeceu a quarentena e houve um gigantesco número de mortes. Pelo que sei, só eu e mais alguns em uma cidade ou outra, sobreviveram. Talvez menos de dez indivíduos por cidade. Na minha, Steviápolis, sou só eu. Pelo menos até onde percebo.

Para usar a internet tenho que carregar o computador, pois, sem pessoas para fazer funcionar as companhias elétricas, não há energia  por estes meios. Mas consigo farta energia das baterias dos carros abandonados, o que me permite usar o computador com relativa frequência, não somente para me manter informado como para me entreter, já que não há outras pessoas. Se Phoebe falasse...

Estou andando longas distâncias a pé, pois não há meios de transporte. O metrô parece cenário de terror, escuro e vazio. Claustrofóbico e macabro. Realmente assustador. Assustador e deprimente. De berrar e chorar. Chorar berrando.

Nas ruas em que andei não há cadáveres apodrecendo, felizmente. A maioria dos mortos morreu nos hospitais. Os que morreram nas ruas se encontram em bairros mais distantes, periféricos. Mas eu levaria dias para ir até lá. Aqui no centro, estou seguro e tenho abrigo e comida com fartura.

Nem preciso ter emprego. Antes do festival de mortes, empregos foram se dizimando rapidamente. Já que não preciso pagar por nada, pois não existem pessoas para me cobrar, tenho o que eu quero, bastando entrar nos estabelecimentos e pagar. Pegar sem pagar. E sem me humilhar.

Magnatas tentaram fugir do país com toda a fortuna que puderam juntar. Mas como os mais ricos foram contra a quarentena, todos morreram de uma forma ou de outra, deixando imensas fortunas intocáveis em paraísos fiscais distantes. Provavelmente saqueados pelos donos dos bancos locais, residentes em países que conseguiram vencer a pandemia.

Hoje eu consegui pegar mais um lote de revistas de palavras cruzadas. Tem sido a minha principal distração, já que o fato de meu computador não ser possante e estar cheio não me permite usá-lo para entretenimento mais pesado. O computador me serve mais para me manter informado. Mas as palavras cruzadas tem me ajudado a exercitar a mente e não me enlouquecer nesta solidão absoluta.

Depois de andar pela cidade a procurar mais comida e mais suprimentos para me manter alimentado e distraído, para mim e para Phoebe, vejo o céu se escurecer. Está na hora de procurar um abrigo. Hoje será diferente de onde dormi na noite passada, pois já estou bem longe de lá. Provavelmente em um hotel abandonado, de duas estrelas que está em uma rua perto daqui.

Nem sei se preciso me preocupar com o que acontecerá amanhã. Como sou só eu, tudo depende exclusivamente de minha decisão. E como eu sei como fazer, tudo está tranquilo. Resta alcançar o tal hotel e dormir o sono dos anjos. Sem alguém para me fazer preocupar, será uma ótima noite. Tenho que pegar antes o que servirá de jantar. Um saco de torresmos e um suco de tangerina parecem boa pedida.

Bom final de tarde. Amanhã temos muito o que fazer.

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