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A Sobriedade dos Bêbados

Por Marcelo Pereira

A embriaguez parece ser o novo tipo de sobriedade. Como a loucura é um novo tipo de lucidez. Como a maioria das pessoas é alcoólatra, fica a impressão de que os sóbrios é que estão bêbados, ao se recusarem aderir a sobriedade coletiva das pessoas embriagadas.

Eu nunca gostei de bebidas alcoólicas. Não por ser carola, pois eu nunca fui muito correto de fato. Talvez por não precisar da bebida para enlouquecer. Já sou um pouco doido. Recusar em imitar a maioria em si já é um ato de loucura. Por isso que ovelhas negras sempre são mandadas ao estaleiro. Só pode ser defeito de fabricação, só pode...

Talvez os bêbados estejam em busca de sua própria sobriedade. Difícil, pois, com a cara cheia, cheios de si e de saco cheio da vida, não conseguem pensar direito. "Bom, sobriedade, vamos ver... Deixa que depois da ressaca pensarei". E não pensa. Pois depois da ressaca lá vem mais outra bebedeira. Bêbados não conseguem imaginar a sobriedade sem um copo de cerveja ou uma taça de vinho ou de alguma coisa que contenha álcool para beber. Ou o álcool gel dos corongas também serve?

Talvez os bêbados prefiram a sua sobriedade ébria porque os faz falar alto e rir sem motivo. Falar alto os faz serem ouvidos. Rir à toa dá a impressão de felicidade. E quem não quer estar ao lado de uma pessoa feliz? Nem que seja uma pessoa falsamente feliz. Até porque a felicidade alheia não nos interessa, mas ficar do lado de um reclamão também não nos interessa. Riremos sem motivo então.

A embriaguez nos une mais por isso mesmo. Ao nos tirar da realidade com as alucinações ébrias, nos tornamos muito mais felizes. Quer felicidade maior que fugir de uma realidade tensa e insolúvel? Insoluvelmente tensa? Não! A benta e a abençoada água alcoólica que comete a benção de nos tirar do mundo real, cheio de problemas cada vez mais difíceis de resolver.

É a sobriedade dos bêbados: se os problemas não se resolvem por si só, nós que não iremos resolver. A solução: fugir da realidade, já que ela é tão feia e assustadora. Até porque para bêbados, tudo fica mais lindo, mais bondoso. 

O feio fica mais lindo, o mal, mais generoso. Sem que o feio deixe de ser feio e o mal passe a ser generoso. Mas como o pó mágico dos tempos de infância, o álcool faz surgir coisas belas diante de nós. Não, elas não existem. Mas agradam aos olhos enquanto estiverem flutuando como moscas volantes diante das nossas vistas dopadas. Bom que estejam aqui. Mesmo de mentirinha.

Por isso quase todos bebem. Os que se recusam por motivos religiosos também se embriagam. Os cultos religiosos estão cheios de alucinações surreais que dispensam qualquer bebedeira. No fundo o ser humano quer se embriagar. A embriaguez é a sobriedade do bêbado.

Maravilha! A felicidade de fugir do mundo real graças a um cérebro perfeitamente anestesiado. Anestesiados, não sentimos dor. Tudo bem que fugimos do mundo real, dormindo feito anjinhos. Mas a dor, aquela que nos incomoda, é perfeitamente eliminada pelo álcool.

A sobriedade do bêbado é sempre arrumar um jeito de dormir feito anjinho. Lá não existe problemas, tudo é bom e belo e todas as pessoas passam a nos amar, simpáticas às nossas repentinas e histéricas risadas. Um mundo encantado irreal onde só há o que gostamos. Só há o que queremos.

Até que, durante a ressaca, a realidade feia e má nos acorda, sussurrando com a sua voz sombria, para avisar que ainda existe...

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