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A Neurose de Guerra da Vida Afetiva

Por Marcelo Pereira

"Quem chega primeiro, leva o melhor"
(Domínio Público)

Eu vou fazer uma confissão. Eu tenho um trauma psicológico. O meu trauma se refere à mulheres comprometidas. É um trauma estranho, raramente relatado pela maioria das pessoas e só conheço eu mesmo que tenha um trauma psicológico relativo a esse assunto.

Para entender o meu trauma, preciso dizer algo antes. Inúmeras vezes foram provados em testes com ratos que uma experiencia negativa repetida inúmeras vezes gera um trauma: se, por exemplo um rato recebe um choque toda vez que toca em um queijo, vai chegar um momento em que o rato vai se afastar do mesmo ou de qualquer queijo, por associar o alimento à experiência desagradável.

Portanto, vamos lá. O meu trauma se refere às mulheres comprometidas. Tenho uma crença subconsciente de que as mulheres que eu quero na verdade pertencem ou estão reservadas aos outros homens. As que estão reservadas para mim ou não me atraem ou podem me causar problemas e danos, no mínimo tédio.

Como originou esse trauma? Simples. Por inúmeras tentativas de conquista em que eu acabava tomando conhecimento, ou pela própria mulher ou por outras pessoas ou testemunhando pessoalmente fatos de que a mesma era comprometida (casada, namorando ou noiva), numa relação estável. E isso aconteceu de maneira incessante, muitas vezes, como um mesmo filme que se repete, mudando apenas um elenco.

Essa experiência moldou a minha personalidade. Me tornei, com isso, uma pessoa mais desconfiada, com receio de iniciativas desse tipo (não por timidez, pois não tenho uma personalidade tímida, mas pelo trauma em si - o medo não é de tomar a iniciativa e sim de repetir a experiência).

Um dos maiores danos é o de ter uma certa raiva dos outros homens, devido ao sentimento de inferioridade perante eles. Não chega a ser inveja, mas um sentimento de que os outros homens são melhores do que eu, pelo simples fato de terem sido aceitos pelas mulheres. Esse sentimento de raiva é um horror. Pensam que eu gosto disso? Claro que não! Isso aumenta ainda mais o meu sofrimento.

Por isso que critico bastante homens que se casam com mulheres que me despertam atração. Se Deus pudesse me punir pela desobediência daquele mandamento "não cobiçarás a mulher...", escolheria a pior punição. Não deve ser uma ideia agradável ser queimado vivo em uma fogueira.

Como lido com isso?

Aos poucos estou vencendo o trauma, com bastante sucesso. Com a rigidez das regras de conquista - que estabelece o perfil do homem "ideal", estipula modos, lugares e situações para que um homem consiga conquistar uma mulher, coisa de uma sociedade excessivamente exigente, o jeito é trabalhar meu pensamento para aceitar a solidão. Aos poucos vou conseguindo. Mas não é tarefa fácil, já que a vida afetiva é direito básico e ser humano não foi feito para viver sozinho.

Tive que tirar a vida afetiva de minha meta. Até isso é um privilégio de outros homens, pois não posso ter planejamentos do tipo "quando eu casar, eu vou..." e nem ouvir aquela cançãozinha "Com quem será que o Marcelo..." nas festinhas de aniversário. Isso não é direito meu.

Mas isso não significa que vou desistir da vida afetiva. Eu não quis dizer isso. Só vou tirar da minha meta de vida. Não dá para estabelecer como meta algo que se tem poucas chances de realizar.

Também não vou ficar com "as sobras", pois sou do tipo que acredita que é melhor ficar só que mal acompanhado. Tentei namorar várias "sobras" e tive que encerrar os namoros com menos de um anos de duração, por causa de algum aborrecimento causado pela relações sem amor.

A solidão não é tão desagradável assim, apesar de ir contra a natureza humana. Vou levando a vida assim, até que apareça alguém "que preste", sem criar expectativas quanto a isso. Muitas vezes a solidão é vantajosa, pois quem vive só possui o absoluto controle de sua vida - incluindo os gastos - esse sim, um privilégio que muitos "felizardos" casados com belas donzelas não possuem.

O jeito é admitir que a festa acabou e parar de exigir o bolo que já foi comido.

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NOTA: Semanas atrás enviei um pedido de "add" para uma lindíssima professora cearense que se parece muito com a atriz Irene Molloy, pois gostei de seu perfil, embora não tivesse lido todos os dados. Ela aceitou. Quando fui ao mural dela escrever uma mensagem de agradecimento lá estava a tenebrosa sentença "casada com Fulano". Imediatamente deletei ela da minha lista de amigos. Não tenho direito de ter uma mulher linda e inteligente?

NOTA 2: A letra da música abaixo metaforiza a neurose de guerra com a vida afetiva. Ouçam, prestando atenção na letra.


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